Técnicas e Educação Somática

Técnicas e Educação Somática

Educação Somática é um campo de saber e prática que compõe de diferentes métodos de pesquisa e atuação em movimento do corpo no espaço para transformação de desarmonias, que podem ser mecânicas, fisiológicas, neurológicas, cognitivas ou afetivas. ShakeYourSoulGraphi

A Educação Somática tem como objetivo principal a recuperação e  manutenção da saúde, por meio da aplicação de técnicas precisas de movimento do corpo. Cada método de Educação Somática – Técnica Alexander, Método Feldenkrais, Eutonia, Ginástica Holística, Método Danis Bois, Método das cadeias musculares e articulares G.D.S, Klaus Viana e outros – tem suas técnicas pedagógicas próprias.

Somático
adj. Relativo ao corpo, ao soma (por opos. ao psíquico): afecção somática.

Definição

O termo foi inaugurado por Thomas Hanna e tem origem na palavra grega soma, que significa corpo vivo. Acredita-se que os métodos de educação somática surgiram na Europa e na América do Norte entre os séculos XIX e XX. É uma técnica teórica e prática baseada na consciência corporal e que tem como objetivo a recuperação e manutenção da saúde de seus praticantes, através de aplicações de técnicas precisas cujo objetivo principal é o movimento do corpo. Preocupa-se em trabalhar o corpo, levando em conta as características e limites individuais. Não é uma técnica usada para substituir o treinamento técnico em dança, mas ampliá-lo.

Cada método de educação somática possui suas técnicas próprias, porém todas elas vão contra a ideia de um corpo mecânico, logo afirmam o pensamento de uma ligação indivisível entre corpo e consciência, deixando claro que as emoções, fatos sociais, culturais, os pensamentos, os valores políticos e espirituais andam junto a essa matéria (corpo). Partem de um pensamento de cumplicidade entre corpo e mente, ambos fazem parte de um processo vivo e formam um objeto comum.

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A educação somática não se privilegia em tratar as diferenças ou desequilíbrios de seus praticantes, mas busca uma maneira de deixar claro que seu problema pode estar relacionado a maneira que essa pessoa se movimenta em seu dia-a-dia, fazendo assim com que a mesma encontre uma forma mais eficaz de organização somática.

A auto-regulação

A auto-regulação é a capacidade que os organismos vivos tem de reencontrar seu equilíbrio e é considerado um eixo de ensino do método de educação somática. Apresentamos como exemplos de problemas diários comuns o stress, os traumas, os hábitos de vida inadequados entre outros, podendo assim estes serem ocasionados pelo enfraquecimento da capacidade de auto-regulação do ser humano. Por isso é importante saber distinguir os momentos de equilíbrio e desequilíbrio, facilitando assim nossa capacidade de lidar com os fatos cotidianos.

O papel do professor de Educação Somática

  • Levar a pessoa a dar sentido ao próprio desequilíbrio, através de suas sensações internas;
  • Ajudar o aluno a reativar seus mecanismos naturais de auto-regulacão, a fim de recuperar o bem-estar;
  • Alimentar a capacidade de distinguir estados de equilíbrio e desequilíbrio;
  • Reconsiderar a posição que adota em seu trabalho; seus hábitos de vida; suas relações com o meio em geral; a percepção que tem de si mesma; sua vida afetiva, social etc.

Os resultados da Educação Somática

  • Melhora da coordenação motora;
  • Prevenção de problemas músculos-esqueléticos resultantes de movimentos repetitivos;
  • Desenvolvimento da capacidade de concentração;
  • Recuperação do esgotamento físico e mental;
  • Facilita o dançarino em seu trabalho técnico;
  • Melhora da respiração;
  • Melhora da flexibilidade muscular e amplitude articular;
  • No relaxamento de tensões excessivas e ativação de músculos pouco utilizados;
  • Transformação de hábitos posturais inadequados;
  • Desenvolvimento da capacidade de expressão.

Os Métodos de Educação Somática

Destacam-se como métodos de Educação Somática:

  • No Brasil a Técnica Klauss Vianna;
  • Antiginástica;
  • Técnica Alexander;
  • Técnica Feldenkrais;
  • Eutonia;
  • Ginástica Holística;
  • Método Danis Bois;
  • Método das cadeias musculares e articulares G.D.S.;
  • Body-Mind Centering;
  • Bartenieff;
  • Sistema Laban/Bartenieff
  • Continuum;
  • Somaritmos;
  • Algumas correntes do Método Pilates.

Referências

STRAZZACAPPA, M. Educação Somática: seus princípios e possíveis desdobramentos. Disponível em: <http://www.revistarepertorioteatroedanca.tea.ufba.br/13/arq_pdf/educacaosomatica.pdf>. Acesso em: 16 abr. 2013.

Estúdio Ayelén Blanco. Dança e Educação Somática. Disponível em: <http://www.ayelenblanco.com.br/danca-e-educacao-somatica/>. Acessado em: 16 abr. 2013.

Poéticas do Corpo. Educação Somática. Disponível em: <http://poeticasdocorpo.wordpress.com/2010/08/09/educacao-somatica/>. Acesso em: 17 abr. 2013.

HUERTAS, S. Educação Somática e Dança. Disponível em: <http://www.sheilahuertas.com.br/saude/educacao-somatica-danca>.

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A Educação Somática e o contemporâneo profissional da dança
por Débora Pereira Bolsanello
(trecho do texto: http://www.ceart.udesc.br/dapesquisa/files/9/01CENICAS_Debora_Pereira_Bolsanello.pdf)
“……
Na atualidade, as exigências do mercado de trabalho impõem ao profissional outros papéis além daqueles assumidos no palco. Hoje, as funções de criador e de educador se acrescentam à de intérprete. De um lado, a dança contemporânea questiona estilos, virtuosismos e formas. De outro, a dança enquanto espetáculo ainda requer do dançarino habilidades específicas.
O presente artigo expõe uma reflexão sobre as possíveis contribuições que as técnicas de Educação Somática podem oferecer na formação do dançarino. Em um primeiro momento, apresentamos conceitos que estamos formulando desde 1988 a partir de nossa experiência como aluna e formadora de técnicas de Educação Somática. Em seguida, colocamos em perspectiva aspectos socioculturais da corporeidade contemporânea em contraponto aos instrumentos teórico-práticos que o campo de Educação Somática dispõe para os artistas do movimento.
O campo da Educação Somática Na América do Norte e na Europa, a partir dos anos 1960, artistas, cientistas e terapeutas assumem o corpo como um laboratório. É a época das peregrinações espirituais, dinâmicas terapêuticas libertárias e experiências artísticas que exploram as fronteiras entre consciência e corpo. Alguns dos métodos de Educação Somática são criados muito antes da efervescência rebelde dos anos 1960, porém é a partir dessa época que essas abordagens começam a se distinguir das abordagens de origem oriental, como a yoga, a meditação, o tai chi e as várias escolas de artes marciais.
Bartenieff, Antiginástica, Técnica Alexander, Ideokinesis, Feldenkrais, Eutonia, Ginástica Holística, Cadeias musculares e articulares G.D.S., Body-Mind Centering, Ginástica Sensorial, Continuum, Somaritmos, Pilates, Gyrotonic: cada um desses métodos de
Educação Somática tem sua própria história, princípios, técnicas preconizadas por um idealizador e desenvolvidas por seus colaboradores, discípulos e assistentes, revolucionando a maneira de se viver o corpo no ocidente. Se em seus primórdios
os métodos de Educação Somática conquistaram sobretudo bailarinos, hoje vêm ganhando espaço nos meios acadêmicos (Université du Québec à Montréal; Faculdade Angel Vianna; Universidade de Porto); clínicas de fisioterapia e estúdios destinados a
um público geral preocupado com sua qualidade de vida. Dispondo de uma grande variedade de movimentos e estratégias pedagógicas, os diferentes métodos de Educação Somática orientam a pessoa — seja profissional da dança ou não — em um processo de reapropriação do sentir o corpo em suas múltiplas relações com o espaço.
Corpo nosso de talvez um dia
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Educação Somática: seus princípios e possíveis desdobramentos

Marcia Strazzacappa

Fonte: http://www.revistarepertorioteatroedanca.tea.ufba.br/

A expressão Educação Somática já faz parte do vocabulário nacional. Em diferentes espaços, tanto educacionais quanto terapêuticos, como escolas de dança, academias, estúdios privados, centros de fisioterapia, cursos universitários, ouve-se essa expressão. Porém, na mesma medida em que o termo é difundido e utilizado, acaba sendo vítima de muitos equívocos e confusões. A Educação Somática poderia englobar todas as técnicas corporais desde que praticadas de forma consciente? Seria a Educação Somática um método de reabilitação corporal? Ou trata-se de uma terapia corporal? A Educação Somática tem apenas fins terapêuticos e corretivos ou também pode ser usada com fins profiláticos e preventivos? A Educação Somática pode ser empregada para a criação coreográfica?

Marcia Strazzacappa, artista da dança e pedagoga. Doutora em Artes pela Universidade de Paris, França. Professora da Faculdade de Educação da Unicamp. Bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq. 2

A tese intitulada Fondements et enseignements des techniques corporelles des artistes de la scène dans l’état de São Paulo, au XXème siècle, Universidade de Paris, França, 2000, encontra-se em sua íntegra disponível on-line. Sua tradução e adaptação foram concluídas e a publicação em língua portuguesa está no prelo pela Summus. questões, dentre outras que nortearam minha pesquisa, conduziram a uma investigação anterior sobre a gênese dessas técnicas e suas possíveis aplicações.

Como a Educação Somática chegou à cena? Que tipo de emprego se faz da Educação Somática nos países da Europa e da América do Norte, onde ela é mais difundida? E aqui no Brasil?

O presente texto apresenta uma síntese do último capítulo de minha tese de doutorado , no qual são feitas reflexões com o objetivo de esclarecer alguns conceitos fundadores da Educação Somática. O texto apresenta igualmente uma discussão sobre a prática da Educação Somática no país, dando destaque aos educadores somáticos nacionais. A história de um termo A Educação Somática já está presente em território nacional há, pelo menos, quatro décadas, porém mais conhecida sob outros títulos, como técnicas corporais alternativas, técnicas de release, técnicas de consciência corporal. Sabemos que a expressão Educação Somática foi definida pela primeira vez por Thomas Hanna em 1983, num artigo publicado na revista Somatics. O referido artigo afirmava que a Educação Somática era “a arte e a ciência de um processo relacional interno entre a consciência, o biológico e o meio-ambiente. Estes três fatores vistos como um todo agindo em sinergia” (HANNA, 1983, p. 7). Segundo Sylvie Fortin, professora da Universidade de Quebec, Canadá, após a realização do primeiro simpósio bianual “Science and Somatics for Dance”, em 1989, o termo passou a ser4 9 3 A expressão reformador do movimento (reformateur du mouvement) estará sendo empregada no presente texto diante da falta de uma outra que melhor traduza nossa idéia (pensadores do movimento?! Teóricos do movimento?!). gradualmente consolidado, o que se verifica depois da formação do International Somatic Movement Education and Therapy Association, nos Estados Unidos, e do Regroupement pour l’Education Somatique, no Quebec.

No Brasil, vimos o reconhecimento dos trabalhos de Klauss e Angel Vianna, de José Antonio Lima, de instrutores de diferentes técnicas que se disseminaram pelo país, além da abertura de cursos superiores em dança com abordagens somáticas (Faculdade Angel Vianna – no Rio de Janeiro; Anhembi-Morumbi, em São Paulo, para citar alguns), além de cursos de pós-graduação – especialização. Para Fortin (1999), em seu artigo intitulado Educação somática, novo ingrediente da aula de dança, a educação somática “engloba uma diversidade de conhecimentos onde os domínios sensorial, cognitivo, motor, afetivo e espiritual se misturam com ênfases diferentes”. Assim, temos as técnicas de Alexander, Feldenkrais, Bartenieff, a Ideokinesis, o Body-Mind Centering, entre outras.

Nos estudos de doutoramento realizados sobre a gênese das chamadas técnicas de Educação Somática e numa análise comparativa e aprofundada sobre aquelas que chegaram e são utilizadas em território nacional, pude observar alguns pontos em comum no que concerne a seus princípios fundadores, quais sejam:

1. as técnicas de Educação Somática estudadas tiveram um ponto de partida comum: uma lesão séria, uma doença crônica ou uma moléstia;

2. as técnicas de Educação Somática colocaram em questão a medicina normalmente praticada nos países ocidentais;

3. as técnicas de Educação Somática percorreram uma trajetória similar, essencialmente empírica, que ia da prática à teorização;

4. as técnicas de Educação Somática apresentam como pensamento fundador a unificação corpo/espírito do indivíduo.

Um princípio comum

Os reformadores do movimento estudados definiram suas técnicas a partir de problemas vividos. Intitulo como reformadores do movimento3 os pioneiros no desenvolvimento e na codificação de técnicas corporais específicas que tinham como preocupação o movimento (ou a recuperação do movimento) do homem e da mulher contemporâneos. Os reformadores se diferenciam de coreógrafos, bailarinos e diretores teatrais porque as técnicas que idealizaram não apresentavam, a priori, fins estéticos. Sabe-se que a codificação de muitas técnicas corporais efetivada por artistas tinha como objetivo a adequação do movimento dos intérpretes à sua concepção pessoal de movimento.

Ao praticar a técnica desenvolvida pelo coreógrafo, os dançarinos tornam-se mais aptos para executar com maior perfeição as idéias de movimento por ele concebidas. Assim foi com várias escolas de dança moderna como Martha Graham, José Limon, Merce Cunnighan, entre outros. O intuito do desenvolvimento de suas técnicas de dança era estético-criativo. Os coreógrafos não estavam necessariamente preocupados com o corpo, nem com a individualidade de cada dançarino. Ao contrário, o dançarino dever-se-ia colocar à disposição do coreógrafo, anulando, se preciso (e possível) fosse, suas características pessoais. Padrões de movimento e ideais de corpo são idealizados e solicitados por cada escola. O dançarino é, assim, um instrumento (uma massa de modelar) a serviço de uma estética.

Diferentemente dos coreógrafos, os reformadores do movimento não pensavam na padronização de corpos, nem tinham uma pré- concepção estética. O desenvolvimento de suas técnicas, embora tenham surgido da necessidade de solucionar problemas específicos e mesmo pessoais, tinha como objetivo exatamente o oposto: resgatar a unidade e identidade do ser humano. Estas técnicas partiam do princípio de que nenhum ser humano é igual ao outro e de que estas diferenças deveriam ser respeitadas e mantidas.

Os5 0 reformadores se diferenciam dos demais profissionais da área corporal pelo fato de terem sido os criadores, os “pais” de novas concepções, de novas maneiras de se pensar o corpo e o movimento. Os demais, como os discípulos diretos (formados pelos próprios reformadores) ou indiretos (formados em suas escolas), herdaram os conhecimentos do mestre-criador, alguns seguiram os mesmos caminhos já traçados, outros se rebelaram, abrindo suas próprias trilhas.

Dominique Dupuy, coreógrafo, dançarino e um dos precursores da dança moderna francesa, afirma no prefácio da obra Anthologie de François Delsarte que Gerda Alexander, Mathias Alexander, Moshe Feldenkrais, Joseph Pilates e ainda outros, todos como ele [Delsarte] partiram de problemas encontrados, de acidentes superados, de experiências vividas, que os abriram à intuição, para elaborar métodos que, cada um dentro de sua própria esfera, ultrapassaram o corpo, a expressão para afetar o homem inteiro. (Dupuy apud PORTE, 1992, p. ix)

Isto pode ser exatamente o que diferencia os reformadores do movimento dos discípulos de uma determinada técnica. No entanto, não podemos acreditar que a condição sine qua non para a criação e sistematização de uma técnica corporal seja ter sido vítima de um acidente, de uma lesão ou de um problema qualquer. Estas situações podem levar o indivíduo a refletir sobre seu próprio corpo e movimento e buscar soluções criativas para o seu bem-estar. Muitos avanços da área da saúde foram obtidos por meio de estudos aprofundados de moléstias (para a medicina) e de casos (para a psiquiatria e psicologia).

Muitas técnicas de Educação Somática se serviram destes conhecimentos, não apenas com os fins de reeducação corporal e terapêuticos, mas também com objetivos profiláticos e preventivos. A relação entre técnicas corporais e saúde/medicina As técnicas definidas pelos reformadores do movimento colocaram em cheque a medicina tradicional normalmente praticada nos países da Europa e da América. Moshe Feldenkrais (que teve um grave problema no joelho), Mabel Todd (que foi vítima de paralisia), Matthias Alexander (um ator que perdeu a voz), citando apenas alguns a título de exemplo, não concordavam com as soluções trazidas pela medicina tradicional da época. Este descontentamento levou-os a tomar em mãos suas curas, questionando, assim, a atuação da própria medicina. Para não generalizar, dever-se-ia dizer que os reformadores questionaram a má medicina tradicional que era normalmente praticada, não a medicina ocidental indistintamente, pois não se podem negar avanços incríveis obtidos em outras áreas da saúde, sobretudo no que toca a doenças da contemporaneidade como câncer e Aids.

Os reformadores do movimento não tinham como objetivo o desenvolvimento de técnicas terapêuticas, nem queriam questionar as práticas médicas de sua época. O objetivo deles era encontrar soluções para seus respectivos problemas. No entanto, ao iniciarem suas pesquisas e definirem seus métodos, as aplicações terapêuticas e as críticas às práticas já existentes acabaram sendo uma conseqüência quase inevitável. Não podemos nos esquecer do processo judicial do qual Mabel Todd foi vítima nos anos 1950, acusada pela Associação de Médicos de Nova Iorque por praticar a medicina ilegalmente, ou o caso de Irene Dowd, que foi demitida de um hospital porque se recusara a cuidar de seus pacientes “em partes”, ou seja, cuidar apenas daquela que apresentava problemas. Estes fatos são exemplos claros de que a medicina se sentia ameaçada pelas ações dos reformadores, sobretudo pelos bons resultados por eles obtidos.

A busca por práticas consideradas alternativas, como a medicina homeopática, mostra a insatisfação de pacientes frente à medicina que é normalmente praticada, que retira do indivíduo exatamente sua individualidade. Como José Antonio Lima, médico e educador somático, afirma: a frustração que a despersonalização da relação médico/ paciente traz ao usuário, está seguramente abrindo a possibilidade de apontar-se a hipótese de que a homeopatia, reconhecida pelo leigo como o ramo “não acadêmico” da medicina, tratamentos baseados em “medicina natural”, Florais de Bach e várias Mandalas religiosas ou orientais, são solicitadas por pacientes que5 1 estariam a procura, exatamente, da possibilidade de não serem normatizados. (LIMA, 1994, p. 16)

É dentro deste espírito que as técnicas corporais encontraram um reconhecimento, um status no mundo terapêutico dito “alternativo”, mesmo sem ser esta sua vocação primeira. Estas práticas, ainda que sem o rótulo de médicas, trazem benefícios aos indivíduos que as praticam, oferecendo-lhes exatamente aquilo que procuram na medicina tradicional, mas que raramente encontram: a atenção à sua integridade. No entanto, não podemos confundir. Sabe-se que todo e qualquer trabalho corporal, seja ele esportivo, ritualístico ou artístico, seja a dança, o teatro, a acrobacia, entre outros, toca o indivíduo como um todo. Não há a dicotomia corpo/espírito, “tudo o que toca o corpo, o coração registra. Tudo que é falado ao coração, mesmo que em segredo, o corpo escuta” (STRAZZACAPPA, 1994, s/p). Não é este fato em si que irá implicar ou garantir o caráter terapêutico destas atividades.

A relação entre teoria e prática O terceiro ponto em comum entre as técnicas de Educação Somática estudadas se encontra na relação entre a prática e a teorização desta prática. Todos os reformadores partiram do vivido, do concreto, de suas experiências sensoriais, de suas vivências. Desenvolveram pesquisas fundamentalmente empíricas. A teorização foi posterior. Dizemos teorização e não teoria, porque esta última está presente a todo instante. Não acreditamos na dicotomia teoria/prática, como defendem alguns pensadores. A teoria e a prática caminham lado a lado e alimentam-se mutuamente.

A teorização é compreendida como a reflexão profunda e sistemática sobre dados empíricos, alimentada por dados intuitivos e científicos posteriores à experimentação. No caso da Educação Somática, vimos que muitos reformadores partiram da intuição e da experimentação. Mabel Todd é um exemplo concreto. Ela seguia apenas sua intuição. No início de suas investigações costumava dizer a seus alunos: “pode soar tolo, mas funciona” (TODD, 1937/1997, p. 216). A teoria sobre seu trabalho surgiu quando ela passou a ter uma médica entre seus estudantes, Dra. Lulu Sweigard, que terminou ficando mais conhecida que a própria mestra ao realizar uma pesquisa que acabou por sistematizar um trabalho corporal baseado na comprovação científica do trabalho de Todd. A teorização tem sua riqueza como memória. A memória que permite ao outro começar um trabalho a partir do ponto onde o primeiro parou. Esta arte efêmera que é a arte do movimento pode encontrar sua eternidade nesta memória, nos princípios e fundamentos perpetuados em registros.

Foi assim que Delsarte pôde ser ressuscitado 60 anos após sua morte. As universidades têm um papel importante na preservação desta memória. Cabe lembrar que muitos reformadores, sobretudo os brasileiros, encontraram nas instâncias universitárias o respaldo financeiro e logístico para poder teorizar seus trabalhos. Foi assim com Klauss Vianna e José Antonio Lima, dentre outros. A relação dicotômica corpo/espírito As técnicas desenvolvidas pelos reformadores do movimento tiveram uma noção fundadora comum: a afirmação da unidade do ser humano, quer dizer, a convicção da unificação corpo/ espírito. Embora isso pareça ser, a princípio, um ponto comum, este pensamento contém um longo e difícil debate.

Todos afirmam categoricamente que o Homem é a unificação do corpo e do espírito. Mas de que corpo eles falam? De que espírito? Não tratarei aqui desta problemática imensa que mereceria ser objeto de uma outra tese, mas gostaria de indicar alguns pontos para nossa discussão. A afirmação da unidade corpo/espírito é defendida ao longo dos discursos de certos reformadores que tendem a manter em suas retóricas a utilização do duplo conceito “corpo/ espírito”. Ora, se o Homem é uma unidade, por que, então, continuar a acentuar o dualismo?

Outros reformadores estão convencidos da unidade, mas, em suas práticas, acentuam um elemento em relação a outro. Mais uma vez, se o Homem é uma unidade, é possível haver a5 2 supremacia de uma parte em relação à outra? Assim, poderíamos dividir os reformadores em dois grupos: o primeiro, que acentua a ação do pensamento sobre o corpo, e o segundo, que acredita que o corpo tem uma ação mais efetiva sobre o pensamento. Embora fique claro que nenhum dos dois grupos nega a existência destes dois fatores como elementos edificantes de uma unidade do indivíduo.

Os reformadores nascidos de uma linha na qual a imagem e a visualização têm importantes papéis no desenvolvimento de suas técnicas, como as técnicas de Alexander, a Ideokinesis e seus discípulos (Todd, Sweigard, Clark, Dowd, Bernard), acentuam a ação do pensamento, não como princípio da metodologia, mas como ferramenta para o sucesso de seu método. Já o trabalho de Bartenieff, Baindbrigde-Cohen, Feldenkrais, Struyf-Denys, Gerda Alexander, Vianna e Lima são mais voltados à ênfase do corpo e do movimento. Buscando clarear equívocos Nesses anos de estudo e pesquisa sobre Educação Somática no país, tenho constatado algumas confusões e outros equívocos quanto à denominação de certas atividades corporais e suas aplicações como pertencentes a este campo do conhecimento.

Embora trabalhos sérios de Educação Somática já sejam realizados no Brasil há mais de quatro décadas por inúmeros profissionais formados em diferentes linhas, a Educação Somática, vitimada por um modismo (como tantos outros que já presenciamos no país), passou a ser vista como um “selo de garantia” ou um “certificado de qualidade” das técnicas corporais. Isso levou a uma tentativa desenfreada de intitular trabalhos corporais como pertencentes à gama de técnicas de Educação Somática. Sob esse ponto de vista, professores das mais variadas técnicas corporais se auto-intitularam educadores somáticos ou, ainda, passaram a chamar e divulgar suas atividades como Educação Somática, no intuito de aumentar a clientela e o valor bruto de sua hora de trabalho.

O equívoco de nomear trabalhos técnicos corporais como Educação Somática não parte apenas de professores e instrutores. Por vezes, o próprio praticante começa a realizar “treinamentos somáticos cotidianos” [sic] por meio da execução de práticas de qualquer natureza, independente de seu fim específico. Dentro desse terreno recémbatizado (que gera, inclusive, um incômodo ao se juntar as expressões “treinamento” e “somático”), incluem-se técnicas de dança, de luta, capoeira, yoga, Pilates, para citar algumas.

Baseando-nos apenas nos elementos apresentados nesse texto, já se podem descartar algumas tentativas de incluir ou classificar técnicas de dança que são notoriamente com fim estético e/ou cultural (como balé clássico e dança moderna ou ainda manifestações populares como as danças religiosas, as danças de rua, a capoeira, etc.), e outras técnicas com fins de combate (luta tailandesa, tai-kon-do, entre outras), como técnicas de Educação Somática, quando realizadas dando ênfase à consciência corporal.

Mesmo que um profissional do universo da arte busque praticar essas técnicas de dança ou de luta com uma intenção diferenciada, isto é, com o objetivo de aprimorar seu trabalho corporal, desenvolver maior flexibilidade e adquirir maior consciência corporal, ainda assim não estará praticando Educação Somática. Trata-se de um equívoco. O que permite a uma determinada técnica ser considerada como Educação Somática não é o fato de ser realizada com maior preocupação e atenção com o corpo, e sim, como vimos no presente texto, sua gênese, seus fundamentos, suas metas e as metodologias empregadas para chegar a esses objetivos. Mas poder-se-ia perguntar: por que a necessidade de qualificar toda e qualquer técnica corporal como sendo Educação Somática? Seria isso apenas fruto do modismo? Qual a finalidade de classificar e de criar categorias para determinadas atividades?

Verifica-se um uso perverso da classificação quando, de fins didáticos e informativos, passa-se a um uso discriminatório, ao se criar concomitantemente uma ordem hierárquica, com a valorização de uns em detrimento a outros.5 3 4 Vide artigo publicado na revista Pro-posições, 1998. Ora, as técnicas de dança, de luta, de alongamento, de condicionamento corporal, como as acima elencadas, quando praticadas de forma consciente e com a mediação de um bom professor, instrutor e/ou mestre, representam trabalhos técnicos altamente qualificados, o que é bom e desejável, independente de terem o “selo” de Educação Somática.

Aliás, ser efetivamente um trabalho de Educação Somática não é garantia de qualidade, pois já presenciei atividades notoriamente de uma linha específica de Educação Somática sendo realizadas de qualquer forma, sem nenhuma orientação adequada. Ou seja, o crédito não está na técnica em si, e sim em quem a ministra e orienta. Desdobramentos possíveis e/ou aproximações desejáveis Há alguns exemplos de trabalhos que associam atividades técnicas convencionais (técnica de dança clássica, moderna, luta, capoeira, entre outras) com técnicas de Educação Somática (Alexander, Feldenkrais, Ideokinesis, Bartenieff Fundamentals, Body-Mind-Centering) que podem surtir efeitos muito positivos.

Sylvie Fortin realizou um estudo com três dançarinas profissionais com o objetivo de analisar os efeitos da Educação Somática sobre o trabalho profissional enquanto dançarinas, professoras e coreógrafas. Nesse estudo,4 evidenciou-se que a Educação Somática, como instrumento para professores e coreógrafos, pode mudar a qualidade do trabalho em sala. “A educação somática não está mais sendo oferecida simplesmente como um treinamento complementar, nem para o estudo da técnica; cada vez mais, ela está sendo integrada à própria aula técnica” (FORTIN, 1998, p. 64).

A influência das técnicas de Educação Somática nos cursos de dança começou a mudar a estrutura de funcionamento dos cursos. Antes, como nos indica Fortin, eram os próprios coreógrafos que impulsionavam a evolução, introduzindo suas estéticas e suas ideologias de corpo nas aulas de dança e no trabalho de treinamento físico. Atualmente, a Educação Somática ocupa um espaço importante ao lado de coreógrafos e diretores teatrais, concluindo que a percepção do papel da Educação Somática poderá mudar assim que sua prática estiver incorporada em grande escala nas aulas técnicas de dança. Caminhando para concluir a reflexão Caminhando para a conclusão, não da discussão, mas do presente texto, destaco que na atualidade temos em território nacional uma gama de técnicas somáticas sendo praticadas e ensinadas e um número considerável de profissionais atuando nos campos da arte, da saúde e da educação, formando, inclusive, praticantes e outros profissionais. Já há nos cursos superiores de dança brasileiros pessoas que trabalham na interface entre dança e Educação Somática.

Há igualmente cursos de pós-graduação (especialização) sobre a temática e pós-graduandos em diferentes programas (educação, saúde e arte) desenvolvendo pesquisas sobre Educação Somática. Nos diferentes espaços nos quais atuo e nos cursos que ministro, sejam eles acadêmicos ou de educação não-formal, tenho disseminado os resultados dessa minha pesquisa teórica e, sobretudo, destacado a “prata da casa”, isto é, o trabalho dos reformadores do movimento nacionais, como Klauss e Angel Vianna e José Antonio Lima. Da mesma forma como Paulo Freire, no campo da educação, e Augusto Boal, no campo do teatro, tornaram-se referências internacionais, por vezes mais conhecidos e difundidos no exterior que no próprio país, identifico no trabalho dos Vianna e de José Antonio Lima, quanto no trabalho de seus discípulos de primeira e segunda geração, princípios inovadores e resultados surpreendentes no que tange a esse campo do conhecimento, com as mais variadas aplicações e possibilidades. Aqueles que tiveram a oportunidade de estudar com esses verdadeiros mestres, em seus distintos momentos, compreendem o que falo. Caberia talvez ainda, num exercício hercúleo e enquanto ainda é possível beber na própria fonte (no que toca a Angel e Lima), produzir mais estudos e pesquisas sobre o trabalho desses pioneiros5 4 tupiniquins, cujos trabalhos têm a somar no campo da Educação Somática e, sem dúvida, irão continuar a influenciar não apenas o ensino da dança, mas as demais áreas nas quais a educação corporal esteja presente.

Referências FORTIN, Sylvie. Educação somática: novo ingrediente da aula técnica de dança. Trad. Márcia Strazzacappa. Cadernos GIPE-CIT, n. 2, 1999. _____. Somatics: a tool for empowering modern dance teachers. In: SHAPIRO, Sherry (Org.). Dance, power and difference. New York: Human Kinetics, 1998. HANNA, Thomas. Dicionnary definition of the word somatics. Somatics, n. 4 (2), 1983. LIMA, José Antonio. Movimento corporal: a práxis da modernidade. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas-SP, 1994. PORTE, Allain. François Delsarte: une anthologie. Paris: Cité de la Musique, 1992. STRAZZACAPPA, Márcia. Fondements et enseignements des techniques corporelles des artistes de la scène dans l’état de São Paulo, au XXème siècle. Tese (Doutorado) – Université de Paris, France, 2000. _____. O corpo en-cena. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas-SP, 1994. TODD, Mabel. The thinking body. London: Dance Books, 1997. Primeira edição: 1937.

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